O Blues, o rock e o Diabo.part-2

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O Blues, o rock e o Diabo.part-2

Mensagem  PapaNJam em Seg Mar 02, 2009 8:59 am

O resultado expulsou Alan Freed das rádios, embora de início ele teria se recuperado com um programa semanal de televisão ao vivo. Por uma infelicidade, o programa durou apenas uma tarde. Durante a apresentação de Frankie Lymon & the Teenagers, uma menina branca pulou no palco e dançou com Frankie, um menino negro, então com 15 anos e o programa foi tirado do ar. Alan Freed, cuja popularidade entre 1955 e 1956 era igual ou maior do que a de Elvis Presley, teve sua licença caçada, sendo obrigado a uma aposentadoria forçada. Ele ainda seria acusado de ser um comunista.

Elvis foi convocado para o exército, e quando retornou em 1960, fez uma apresentação e depois abdicou de tocar ao vivo para se dedicar à carreira de artista de cinema. Acabou se tornando a antítese do rebelde em uma série de filmes xaroposos. Chuck Berry teria sérios problemas legais, Jerry Lee Lewis teve sua carreira encerrada pela opinião pública ao descobrirem que ele havia casado com sua prima de apenas 14 anos. Somando a estes eventos, em fevereiro de 1959, Buddy Holly, Ritchie Valenz e The Big Bopper morrem em um acidente de avião. O acidente serviu como o golpe derradeiro para um rock que se esvaía em uma morte lenta e aparentemente certa. Por último, Little Richard, quando seu avião tem uma pane, resolve largar a vida de artista para estudar teologia e virar pastor, só voltando ao circuito em 1962.


Fabian
As rádios são inundadas por músicas de pop suave que a indústria era orientada a oferecer. Gente como Ricky Nelson, Pat Boone, Frankie Avalon, James Darren, Paul Anka, Fabian e muitos, muitos outros. Até o cinema, que antes trazia filmes que associava rock com rebeldia como "Blackboard Jungle" e "Rock, Rock, Rock" oferece agora um misto de romance e comédia, com a série da "Turma da Praia".

A outra moda foram as danças novas que seguidamente surgiam como forma de "terapia ocupacional". São elas o Twist, o Mashed Potatoes, o Monkey Stomp, o Bristol Stomp, o Watosee, o Dog, o Swim, o Frug, o Hully Gully e um incontável monte de outras. Basicamente, o rock na América adocicava e perdia a rebeldia. Somente a Surf Music da época, vindo da costa oeste, oferecia alguma centelha de genuíno espirito juvenil. Mas enquanto isso, na Inglaterra fatos agitam o circuito.

Londres É Fecundado

"O Blues teve um filho e o chamaram rock 'n' roll." - Muddy Waters (1977)


Muddy Waters
Em 1958, acontece um evento que ajudaria a mudar o destino do blues e do rock na década de 60. Muddy Waters vai à Inglaterra. Enquanto os ingleses esperavam assistir autêntica música rural, imaginando encontrar este bluesman sentado em um banquinho com um violão, encontraram uma banda tocando instrumentos elétricos e este homem urrando blues por todos os poros, em um volume sem precedentes. O choque foi imenso e seus efeitos devastadores. Na platéia deste show, estavam entre outros, Alexis Korner e Cyril Davies.

No ano seguinte, o inglês Chris Barber, excursionando pela América com sua Jazz Band, ficou impressionado com o blues que ele ouviu em Chicago. Aos poucos Barber começou a trazer ocasionalmente alguns bluesmen para Inglaterra. Em 1962 trouxe Sonny Boy Williamson (2). Nesta ocasião, quem estava na platéia era o jovem Brian Jones. Este foi o show que fez Jones colocar o jazz de lado e passar a estudar o blues. Em 1961 Alexis Korner e Cyril Davies fundam The Blues Incorporated, possivelmente a primeira banda branca de blues inglesa de respeito. Entre 1962 e 1964 essa banda teria, entre outros integrantes, Charlie Watts, Jack Bruce, Brian Jones, Paul Jones, Mick Jagger, Art Wood, Graham Bond, John Baldry, Hughie Flint e Ginger Baker. O Blues Incorporated seria o embrião para bandas como The Rolling Stones e Cream, além de fornecer diversos músicos para formações variadas dos Bluesbreakers de John Mayal.

Os Rolling Stones, uma banda de garotos que tocavam apenas blues e rhythm & blues, fixa residência no clube The Crawdaddy e acabam se tornando diretamente responsáveis por popularizar o blues para toda uma nova geração de amantes do gênero entre os ingleses. Os primeiros resultados desta influência são os nascimentos das bandas The Yardbirds formados por um grupo de rapazes que freqüentavam o Crawdaddy e The Pretty Things formado por um ex-membro dos Rollin' Stones, Dick Taylor. Assim, é justo concluir que sem os Stones para levarem o rhythm & blues a ser tocado nas rádios, demoraria muito mais tempo para tantos jovens conhecerem os nomes de gente como Elmore James, Muddy Waters, Bo Diddley e Jimmy Reed, na Inglaterra.Quando em 1964 os Beatles aportam na América e acabam por abrir um mercado para bandas inglesas naquele país, sua música é o rock de negros como Chuck Berry, Little Richard e o soul de Smokey Robinson. Os Beatles assim, revitalizam o rock americano, trazendo de volta o espirito rebelde com os cabelos compridos e respostas rápidas para perguntas insosas. Paralelamente, dentro dos Estados Unidos, no Village em Nova York, um rapaz do interior chamado Bob Dylan, estava transformando o pacato gênero folk em um estilo ligado a política e protesto. Somando isto à revitalização do rock incendiado pelos Beatles, nasceria o folk rock, popularizado por bandas como The Byrds, Lovin' Spoonful e a dupla Simon & Garfunkel. Em pouco mais que dois anos, se criaria todo o fuzuê que é hoje lembrado como o movimento hippie. Depois dos Beatles, vieram à América toda uma tropa de bandas inglesas. Entre eles, The Rolling Stones e The Animals.

O Blues e a Década de Sessenta

"O blues é uma cadeira, e não um desenho de uma cadeira. É uma cadeira para se sentar, não para compor um ambiente." - John Lennon (1970)

No espaço de dois para três anos, jovens brancos nos Estados Unidos estavam ouvindo com sotaque inglês, o blues dos negros de sua terra, o qual sempre ignoraram. Para ilustrar como a "maré" era baixa para os negros que cantavam o blues, quando os Rolling Stones foram gravar em Chicago, no Chess Studios em Junho de 1964, o mesmo estúdio em que os seus ídolos gravaram, Muddy Waters estava lá ganhando uns trocados pintando o teto do lugar e ajudando a instalar os equipamentos dos artistas que chegavam. Nunca se fez dinheiro decente com o blues, pois esta música negra era até então tratada como sub-cultura. Todos esses bluesmen aqui mencionados e todos os outros que você possa se lembrar, eram populares então somente dentro das comunidades negras. E esta comunidade não tinham a independência econômica que hoje ela desfruta. Martin Luther King ainda era vivo e o movimento Panteras Negras ainda não havia se organizado. Segregação era muito forte na América e só passou a ser contra lei em Julho de 1964.

Então a grande comunidade branca desconhecia praticamente todos esses artistas. As exceções seriam os jazzistas. O homem branco dos anos trinta aceitava o jazz dos negros mas preferia sua versão deste jazz; o big band. Fora do jazz, os negros que conseguiram alguma respeitabilidade no meio musical eram Nat King Cole, o primeiro negro a ter seu próprio programa de televisão, Ray Charles e James Brown. Mesmo esses, sendo atrações principais, eram obrigados a aceitar humilhações como não poder usar a porta da frente ou sequer o banheiro normal da casa, apenas o banheiro dos fundos. Com as mudanças sociais e valorização repentina do blues, graças à popularização feita pelos artistas ingleses, em pouco tempo todos esses bluesmen começaram a ficar famosos e respeitados. Assim, em 1965, Muddy Waters estava se apresentando em Montreux, Howlin' Wolf excursionando pela Inglaterra e Bo Diddley viajava para a Australia regularmente.


Rolling Stones
Com a determinação dos jovens em criar um novo padrão de estética e valores distintos dos de seus pais, as famílias tradicionais, que pertencem ao poder dominante, sentiam-se ameaçadas por declarações diversas dos novos ricos, este novo grupo social, os rockstars. Entre estes, Mick Jagger é chamado de "a voz de sua geração". Com a fama dos Rolling Stones de quebrarem as regras estabelecidas e continuarem seguidamente vencendo batalhas jurídicas que tentam encarcerá-los, Mick Jagger e Keith Richard são acusados de se associarem a Satanás em troca de controle sobre as massas e sucesso mundial. A situação piora quando lançam uma música intitulada "Sympathy For The Devil." A partir desta canção, as historias das relações satânicas da banda são consideradas oficialmente confirmadas. Então é apenas natural que, quando Brian Jones morreu em Julho de 1969, houvesse quem insinuasse que Mick Jagger o teria matado por meio de magia negra, para tomar definitivamente a liderança da banda.

As mortes ocorridas no festival em Altmont e as conotações demoníacas que surgiram a seguir, em relação a uma apresentação dos Rolling Stones, que foi na verdade uma oferta gratuita, presente dos Stones para a cidade, só servem para fertilizar as imaginações da nova geração de garotos pré- adolescentes impressionáveis e atraídos pela junção de rock pesado com ocultismo. É a era de bandas como Iron Butterfly, Vanilla Fudge, Led Zeppelin, Blind Faith, Moby Grape, Deep Purple e Black Sabbath. Os Stones continuam provocando, compondo canções como "Midnight Rambler" que fala sobre um serial killer; "Street Fighting Man", música que acaba censurado nas rádios, por o sistema temer agitar rebelião entre os jovens e a polícia, e "Dancing With Mr. D.", este último, fazendo parte de um álbum com o titulo provocativo de "Goats Head Soup" (Sopa de Cabeça de Cabra). Mick Jagger seduz sua geração, como também a mídia, e acaba sendo comparado por alguns ao Fausto.

Johann Faust

"Inteligente foi o homem que inventou Deus" - Platão (427-348bc)

É difícil saber se ele realmente existiu ou se tudo não passa apenas de uma ficção para uma peça teatral, tão mórbida quanto criativa. O rock flertou com sua lenda no musical de 1974, "The Phantom of The Paradise" (O Fantasma do Paraíso), filme de Brian de Palma com músicas compostas por Paul Williams. Mas quem é Faust realmente?

Faust dependendo de quem está contando a historia, é um operário do demônio ou mais um egocêntrico perdido e enganado pelo próprio. A primeira referência a Johann Faust encontrada é datada em 1507 na Alemanha, mas uma compilação das diversas historias já existentes ao seu respeito, fora escrita, tornando-se sua primeira biografia. O livro, "A Historia da Vida Amaldiçoada e a Merecida Morte de Dr. Johnn Faust," foi escrita originariamente em alemão em 1587, depois traduzida para o inglês em 1592, quando o descobrimento do Novo Mundo completava seus primeiros cem anos.

Nascido na Alemanha em Knittlinger, Wurttemberg, Georg Faust, depois conhecido como Johannes ou Johann Faust ou Faustus, viveu provavelmente de 1480 a 1546. Estudou em Heidelberg, se formando por volta de 1509. Desiludido com o raciocínio estéril de seus tempos, seguiu para a Polônia para estudar ciências naturais, matéria mais conhecida na época pelo nome de magia. Atendeu a Universidade de Erfurt mas era mal visto e temido. Lembrando que no período da história em que viveu, qualquer cientista inovador, com opiniões diferentes do estabelecido como verdade, corria o sério perigo de ser taxado de bruxo e temido.

No caso de Dr. Johann Faust, o caminho que percorreu foi de um estudioso de magia (ciências naturais) que aplica seus conhecimentos na medicina. Já um brilhante alquimista, seus conhecimentos superiores o levaram a ser expulso da cidade de Ingolstadt em 1528 e ter sua entrada recusada na cidade de Nurembery em 1532. Embora existam aqueles que o consideram um charlatão, este contemporâneo de Nostradamus foi levado a sério e temido por intelectuais da nossa história como Martin Lutero e Philipp Melanchthon.

Conta a lenda que, enquanto ainda um aprendiz, em sua frustração, jogou seus livros na fogueira e evocou Mephistopheles para auxiliá-lo. Vendeu a sua alma para Belzebu em troca de sabedoria e poderes mágicos, e teve Mephistopheles designado como seu servente por vinte e quatro anos. Ganhou junto a sua companhia, poder e rejuvenescimento. Entre outras lendas, ele teria ido a Roma e enquanto invisível, fez travessuras com o Papa, voava pelo ar sobre barris de vinho e tinha poder sobre os mortos, fazendo reaparecer em carne Alexandre o Grande e Helena de Troia.

Dotado do poder da sedução, acabou descobrindo que sua salvação não estava no poder sobrenatural ou nos serviços de Mephistopheles mas sim, no amor que sentia por Margareth, também chamada de Gretchen. Ele encontrou o amor mas não a paz ou a felicidade. Faust acaba queimado vivo em uma fogueira enquanto sua amada, foge com o filho do casal, à beira da morte, no frio do inverno.

Se o Seis Fosse Um Nove

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