O Blues, o Rock e o Diabo

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O Blues, o Rock e o Diabo

Mensagem  PapaNJam em Seg Mar 02, 2009 8:58 am

Prefácio

"Música - que arte esplendida; que profissão trágica." - Georges Bizet

Há em diversos casos uma relação diretamente proporcional entre a beleza das melhores músicas do nosso tempo e a tragédia e a dor sofrida pelos seus compositores. O rock sempre foi relacionado como música do diabo e isto, para muitas pessoas, é algo perturbador. Com isto em mente, pensei que poderia ser interessante falar sobre a trajetória do rock, advindo do blues, apontando alguns eventos marcantes e assim, talvez, ilustrando um pouco como perpetua-se esta herança do maligno no rock. Na verdade, cientistas e artistas brilhantes, por toda nossa história, têm sido, em um ponto ou outro, levado ou ao fogo ou à ruína, na maior parte dos casos, por medo, ignorância e pura inveja. Todas as histórias de demônios contadas pelo homem advêm basicamente destas limitações humanas e da necessidade de semear o medo para manter a ordem imposta. É o que vemos através da história. Ainda assim, precisaremos divulgar aqui algumas histórias e crendices que se tornaram extremamente populares, relacionadas a pactos com o mal. Se você considera estes assuntos ofensivos, recomendo não prosseguir.

Niccolò Paganini

"Aquilo que engana também cria encantamento mágico" - Platão (427-348bc)


Paganini
Para os que permanecem, começamos com um exemplo fora da música negra, o italiano Niccolò Paganini, nascido em Gênova em 1782, há pouco mais de 200 anos, violinista em uma época em que, na música, somente os cantores de ópera eram realmente respeitados e bajulados. Ele no entanto tinha mais carisma e chamava mais atenção do que os grandes astros de seu tempo, os tenores. Foi atacado tão fortemente por sarampo quando criança que quase o enterraram pensando que estivesse morto. Por conta desta doença, seu corpo seria para sempre magricelo e seu rosto esquelético. Seu pai, Antônio Paganini, sonhando com fortuna às custas de seu menino prodígio, o criou severamente, punindo-o cruelmente a cada erro que cometia em seus exercícios. Aos oito anos, já dava recitais e compunha música de considerada complexidade para sua idade. Aos treze foi reconhecido como criança prodígio em Gênova. Aos quinze, excursionou seu país, fazendo memoráveis apresentações em Milão, Bolonha, Florença, Pisa e Leghorn. Em 1798, aos dezesseis anos, tinha juntado dinheiro suficiente para fugir da tirania de seu pai.

Como músico, ele inovou e contestou o medíocre, como um autêntico rebelde. Inovou usando harmônicos, como também trazendo de volta a esquecida arte de scordatura, ou seja, afinações variadas, utilizadas no violino pela primeira vez. Você poderia dizer que Paganini era o Jimi Hendrix do violino, duzentos anos antes, tirando sons inimagináveis até então com aquele instrumento. Quer saber mais? Ele usava calças apertadas e cabelos bem compridos; deixava as mulheres desmaiando, loucas de tesão e os homens loucos de inveja. Mas acima de tudo, Paganini tocava seu instrumento com uma concepção anos-luz à frente dos seus contemporâneos. No entanto seu sucesso foi marcado por incessantes boatos sobre seu suposto pacto com o diabo. Seu rosto magro e cadavérico dava força a tal suposição. Sempre tocando para teatros com suas lotações esgotadas, Paganini era o músico mais rico de sua época. Sua riqueza e fama era tão grandiosa que qualquer camponês sabia como sendo fato, que o homem tinha um pacto com o diabo. Que outra explicação para ele poder ser tão melhor e tão mais bem sucedido que os outros?

A imprensa da época o retratava como um homem cruel, mórbido, egoísta, ganancioso e um jogador compulsivo. De fato, ele perdeu seu violino pagando uma divida de jogo. Presenteado por um amigo, outro violino quase foi perdido nas mesas de apostas, antes dele se conscientizar e jurar nunca mais chegar perto de uma mesa de jogo. Segundo a crença popular, ele juntara uma gangue e matou diversos maridos das mulheres com quem teve casos. Pessoas juravam que viram Satanás guiando sua mão, segurando o arco sob as cordas do violino durante seus espetáculos. Outros diriam que viram assistentes do demônio partindo do teatro de onde Paganini acabara de se apresentar, seguindo de carroça, por uma estrada que sequer existia. Mesmo os admiradores de sua música se benziam caso Paganini os tocasse. Houve momentos em que ele fora obrigado a publicar cartas de sua mãe para provar que havia nascido normalmente como qualquer mortal.

Em 1836, abriu um cassino em Paris que acabou falindo. O seu desgosto pela perda de sua fortuna, lhe fez um mal irreparável à saúde. Ele se mudou para Marseilles e depois Nice, para se recuperar. Passou a praticar o violão neste periodo. Ainda reapareceu tocando o violino magestralmente bem, embora ainda doente. Quando ele morreu em 27 de Maio de 1840 em Nice, a igreja católica recusou-se a enterrá-lo e os camponeses tinham medo do seu corpo. Ele só foi enterrado em 1843, quando o corpo foi trazido de volta para a Itália, graças a seguidos pedidos de seu filho para que Roma intercedesse no caso, a favor do mestre.

Robert Johnson

"Nós todos viemos de um escravo, cantando no campo, em algum lugar" - Lenny Kravitz (1995)

Pouco mais que um século depois, apesar de nunca ter sido rico e com fama apenas regional enquanto em vida, Robert Johnson oferece uma certa similaridade com a história de Paganini e aqueles que o criticavam. Nascido em 1911, negro e descendente de escravos, foi criado em uma fazenda de algodão. Assim, trabalhando no campo desde criança, teve pouca instrução, aprendendo a tocar seu primeiro instrumento, a gaita, sozinho. Quando começou a entrar na maioridade, fugiu de casa para aprender a tocar violão com Son House. Logo passou a tocar junto com os músicos que mais o influenciaram, Charlie Patton e Willie Brown, além do próprio Son House. Juntos, perpetuavam o que se costuma chamar de country blues; o blues rural ou delta blues, pois vinham da região do delta do Mississippi.


Robert Johnson
Com vinte anos, Johnson descobriu como fazer sua guitarra chorar usando o gargalo de uma garrafa quebrada, deslizando-a pelas cordas. Já se apresentando sozinho, foi o autor de uma série de composições que retrataria diversas amarguras da vida, desde a rejeição carnal até o desconforto espiritual. Suas letras falam de amores violentos, como em "Ramblin' On My Mind" e amores perdidos como em "Love In Vain". Com um certo senso de sutileza, ele fala sobre sexo em letras como a de "Traveling Blues", onde utiliza analogias do tipo "Squeeze my lemon till my juice runs down my leg" ("Espreme meu limão até o suco escorrer pelas minhas pernas") frase hoje mais lembrada na voz de Robert Plant quando este pertencia ao Led Zeppelin. Johnson também falava de perseguição e desespero em canções como "Me And The Devil" e "Hellbound Trail". Essas letras ajudaram amarrar a lenda de um pacto entre o diabo e o bluesman, lembrado até hoje.

Conta-se que Robert Johnson ficou à espera em uma encruzilhada, com seu violão à mão, em uma noite de lua nova. Quando deu meia noite, o diabo em forma de homem apareceu para afinar o instrumento. A partir daí, todos que ouvem suas músicas são encantados por ela. Na verdade Robert Johnson tocava um violão excelente e é mais provável ser a inveja, a origem das lendas que apareceram. Sua genialidade e dom natural são tão mais cativantes, comparando-se aos outros músicos de sua época, que novamente me traz à lembrança o destino infeliz de Paganini. Johnson costumava tocar quase que de costas para o seu público. As pessoas então diziam que ele fazia isto para esconder o olhar do diabo que surgia para auxiliá-lo. Mais coerente seria supor que ele se preocupava em esconder os acordes que bolava sozinho e não queria que outros músicos na platéia o copiassem.

Por volta de 1935, ele perambulava entre as cidades dos estados de Tennessee a Arkansas. Fez uma série de gravações em 1936, que circularam pelo sul e eventualmente chegariam a ser ouvidos pelo norte do país. Acabariam editados em dois álbuns, anos depois de o artista falecer. Em 1937, tocaria com ele em ocasiões esporádicas Alex Miller (Sonny Boy Williamson, o segundo), como também Elmore James e Howlin' Wolf, mas em geral Johnson se apresentava sozinho.

Morreu, acredita-se, no dia 16 de agosto de 1938. Como toda boa lenda, existem diversos rumores para explicar sua morte, mas em geral inclina-se a acreditar que um marido ciumento colocou veneno em sua garrafa de bebida. Johnson era famoso pela atração que causava nas mulheres, como também por atrair as chamadas "mulheres erradas". Ele veio a morrer três dias depois de envenenado, sofrendo dores estomacais horríveis durante esse tempo. Isto explicaria em parte as histórias que contam dele antes de morrer, andando de quatro e uivando como um cachorro, animal muitas vezes associado com o demônio.

Os Caminhos do Delta

"Deus nos dá a carne e o Diabo os cozinheiros" - Thomas Deloney (1543-1600)

No outono, ainda em 1938, John Hammond, um produtor de Nova York, ouviu a canção "Terraplane Blues", composta e gravada por Johnson, e ficou bastante impressionado. Hammond pode ser considerado um pesquisador de música negra, algo raro nesta época. Utilizou o resultado de sua pesquisa para uma de suas produções, chamada "From Spirituals To Swing". Agendou o Carnegie Hall e é responsável por tentar apresentar para o público intelectualizado branco a música negra, com um status de cultura legítima, pela primeira vez na América. Era seu intuito encontrar Robert Johnson e fazê-lo se apresentar no Carnegie Hall, mas logo descobriu que Johnson já estava morto. Hammond colocou então para o espetáculo Big Bill Broonzy.


Robert Lockwood Jr
Big Bill Broonzy é para muitos quem melhor fez a tradução do estilo blues rural para o blues urbano, o chamado Chicago blues. Mas antes temos que falar de Robert Lockwood. Conhecido como Robert Lockwood Jr., este rapaz ganhou a denominação "junior" em seu nome por ser o único músico que teve aulas com Robert Johnson, seu padrasto. Dois anos após a morte de Johnson, Lockwood já exibia muitas das características musicais de seu padrasto.

Em 1941, enquanto fazia dupla com Alex Miller, que então passou a ser chamado de Sonny Boy Williamson (2), Lockwood deixou seu violão de lado e passou a tocar guitarra elétrica. Entre 1943 e 44 a dupla passou a tocar regularmente no programa de rádio Mother's Best Flour Show, da estação KFFA, de Helena, Arkansas. Este fato foi extremamente significativo para o história do blues, pois deu a oportunidade para muitos bluesmen espalhados pelo sul de ouvir o som de uma guitarra elétrica pela primeira vez. Logo, gente como Elmore James, Howlin' Wolf, John Lee Hooker, Muddy Waters e BB King, entre muitos outros, estavam portando guitarras elétricas.


Chuck Berry
Desta maneira, a herança de Robert Johnson viaja rapidamente, subindo o Rio Mississippi e chegando a Chicago. Com menos de uma década após o falecimento de Johnson, o blues tornara-se elétrico, ficando mais alto, ganhando peso e swing. Na década de quarenta, Jerry Wexler, um judeu de Nova York que escrevia para a Billboard, cria a denominação Rhythm & Blues para esta música swingada, enraizada no blues. Seu intuito é de fazer o termo então em voga, "race records", cair em desuso em função de sua conotação racista; traduzido seria "discos da raça (negra)". Wexler durante as décadas de cinqüenta a setenta, se tornaria um renomado produtor e gravaria diversos artistas negros como Big Joe Turner, Champion Jack Dupree, T-Bone Walker, Ray Charles, Wilson Pickett e Solomon Burke.

Outros dez anos se passam e em 1955 surgem Elvis Presley e Chuck Berry, os dois sendo censurados na região da América conhecida como "O Cinturão Bíblico". Seus feitos são conhecidos por qualquer roqueiro que se preze. Chuck por criar os primeiros e mais importantes riffs do rock 'n' roll; e Elvis, por cantar e dançar de forma lasciva, torna essa música interessante e permissível entre os brancos. Como Elvis diria em 1956, "os negros tocam este tipo de música há mais tempo do que eu possa contar. Mais ninguém ligou para esta música até eu começar a tocá-la".

Aumenta Que Isto Aí É Rock 'n' Roll

"Insano é o homem que, incapaz de criar uma minhoca, cria Deuses às dúzias" - Montaigne (1553-1592)

De fato, as famílias brancas ficaram em polvorosa ao verem seus filhos (e filhas) se envolvendo com uma música tocada por negros. A música negra é então considerada como música tribal, portanto pagã e diabólica. A fé é um poder tão impressionante quanto inebriante. Pastores passam a se promover em suas comunidades, falando sobre os males da música negra para a alma, agradando pais igualmente preconceituosos no processo. Porém do texto, pronunciado supostamente em nome de Cristo, só saem palavras de intolerância, ódio e discriminação. Apesar das variações, o denominador comum destes sermões é de ameaçar os seus fiéis com a figura do Diabo para se manter um código de conduta preestabelecida pela comunidade dominante, mantendo assim o patrocínio desta comunidade para a igreja. Uma lástima, já que quanto mais se fala em Satanás, mais se está erguendo sua obra.


Alan Freed
Entre outras limitações humanas que explicam o alvoroço criado em relação à música negra adotada pelos filhos da sociedade branca americana, estão o egocentrismo, racismo, ignorância, medo e inveja. Alan Freed, disc-jockey de Cleveland, percebendo a insatisfação da sociedade dominante, vendo seus filhos e filhas dançando e cantando para a música negra, tenta aliviar a pressão inventando um nome alternativo. Assim, os filhos e filhas brancas "deixariam" de estar ouvindo música negra para estarem ouvindo um "NOVO" tipo de música. Essa é em parte a situação atrás da idéia de rebatizar a música ainda conhecida como rhythm & blues. Nasce o nome Rock 'n' Roll, que nada mais é que rhythm & blues um pouco mais acelerado, ou se preferir, em up-tempo, executado por brancos. Quando os negros o tocam, volta a ser chamado rhythm & blues.

A onda durou por alguns anos mas, com o sistema insatisfeito com o rock sendo sinônimo de rebeldia, acaba por fechar o tal "cerco social" entre 1958 e 1959, estrangulando o rock e muitos dos seus criadores. Primeiro surgiu o escândalo da payola, que tratava da ilegalidade de pagamentos extra-oficiais entre as gravadoras e os DJ's (o nosso popular e disseminado jabaculê - o jabá).

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