1994: o início da saga do “Chinese Democracy”

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1994: o início da saga do “Chinese Democracy”

Mensagem  PapaNJam em Qui Fev 05, 2009 1:02 am

É janeiro de 1994. Por várias semanas, Slash tem mandado várias fitas com riffs de guitarras (e jam sessions com Gilby Clarke e Matt Sorum) para Axl, como sugestões de idéias para a banda começar a trabalhar em seu novo álbum de estúdio. Em 3 de janeiro, Axl Rose diz à Rockline Radio: "nós temos em mente o ano de 1996 (para lançar o álbum) e nós provavelmente vamos gravar muita coisa, vamos tentar fazer bastante coisa até lá... Talvez nós até trabalhemos com Brian May em um projeto futuro."


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A revista Classic Rock apresentou nesta série, ano por ano, um relatório dos bastidores do álbum mais controverso de todos os tempos. As traduções serão publicadas diariamente no Whiplash!.

Compilado por: Lauri Löytökoski
Material adicional: Scott Rowley



Eles tinham algumas músicas prontas. No ano anterior, Axl falou à revista Hit Parader sobre uma música que - 15 anos depois - seria lançada como a penúltima faixa de Chinese Democracy: "nós realmente ainda não sentamos para compor", disse ele. "Eu compus e gravei uma nova música de amor que eu quero colocar no novo disco, chamada 'This I Love', que é a coisa mais pesada que já fiz."

O produtor/engenheiro de som Dave Dominguez indica que essa música é ainda mais antiga, comentando que "'This I Love' é de fato uma música bem antiga do Guns... Gravada para os álbuns 'Use Your Illusion'. Eu gosto muito dessa música... Demorou algumas semanas para achar todas as fitas porque eles terminaram de gravar os álbuns já em turnê e uma fita estava em Paris, a outra em Londres e outra em Sydney, eu creio."

Na verdade, talvez Dominguez esteja enganado sobre 'This Is Love' ser originalmente uma música gravada para os UYI (os álbuns foram lançados em 17 de setembro de 1991 e, comparando as datas da turnê com as sessões de estúdio, o Guns tocou em Londres em 31 de agosto de 1991 e em 20 de abril de 1992, em Paris em 6 de junho de 1992 e em Sydney em 30 de janeiro de 1993) - é mais provável que a música tenha sido originalmente gravada na mesma época em que o material lançado no álbum "The Spaghetti Incident?".

Em 19 de janeiro, Axl apareceu na cerimônia de indicação de Elton John ao "Rock'n'Roll Hall Of Fame". Ele também tocou "Come Together", dos Beatles, com Bruce Springsteen. Essas acabaram por ser suas últimas performances em público por vários anos.

As demos do Snakepit



"Inicialmente eu só estava escrevendo o que achava legal", disse Slash em 1995. "Eu me sentia como um garoto em uma loja de brinquedos. Eu tinha um estúdio em casa. Era só acordar de manhã, literalmente apertar o botão de ligar, plugar minha guitarra e começar a tocar. Eu não olho para as coisas com um conceito de compor um álbum que seja o hit da temporada, o hit quintessencial. Meu negócio é riffs de guitarra... É a nossa banda. Então, se eu escrevo algo, minha primeira e principal prioridade seria apresentar o material ao Guns."

Slash ainda se dedicava exclusivamente ao Guns N' Roses, mas na entrevista à Rockline Axl deixou escapar que - assim como Duff McKagan e Gilby Clarke - estava começando a pensar em um projeto solo. "Eu estou tentando montar um projeto que é algo como uma arma ultra-secreta", disse ele.

Mais tarde naquele ano perguntaram ao vocalista o seguinte: caso ele pensasse em montar um projeto solo, com quem ele gostaria de trabalhar?

Axl: "Trent Reznor do Nine Inch Nails seria um cara, e o Dave Navarro do Jane's Addiction seria outro... Eu até já conversei com Trent sobre ele trabalhar comigo em um projeto industrial com sintetizadores, pelo menos em uma música, e eu certamente gostaria de trabalhar com Dave... Eu sempre tive a curiosidade de saber como ele soaria, tocando com o Slash em alguma coisa."

Em 1995, Slash lembrou-se dessa época ao falar à revista Metal Hammer: "houve um ponto em que Axl disse: 'eu vou gravar um disco solo, e eu vou chamar Trent Reznor e Dave Navarro, e o baterista do Nirvana...' e coisas do tipo. E isso é algo como - ele nem conhece metade desse povo, ele simplesmente está sacando esses caras do nada. A minha reação foi 'legal, faça isso, ponha isso pra fora e quando você voltar nós seremos apenas o Guns N' Roses." (Em 1995 o tablóide sueco Aftonbladet perguntou ao guitarrista o motivo pelo qual todos na banda lançaram um projeto solo menos Axl. "Axl acha que o Guns é o seu projeto solo", disse Slash.)

No começo de 1994, Slash se encontrou com Axl para conversar sobre as demos que acabaram por se tornar músicas do Snakepit.

Como Slash contou em sua autobiografia: "eu comecei a andar com o Matt e gravar demos do material que a gente tocava só pra me divertir, e Mike Inez do Alice In Chains e o Gilby começaram a aparecer e tocar conosco. Nós três pegamos o embalo e começamos a tocar e a gravar toda noite. Nós não sabíamos sequer no que aquilo iria resultar. Em algum momento eu toquei esse material para o Axl, que demonstrou um profundo desinteresse por ele."

Como ele também disse à revista Rock Hard: "eu toquei para o Axl uma demo com algumas de minhas idéias para músicas, e tudo o que ele disse foi: 'eu não tenho interesse em tocar esse tipo de música.' Eu respondi: 'mas esse poderia ser um excelente disco do Guns, 100% no estilo da banda.' Ele realmente não deu a mínima, ele só queria tocar industrial e umas porcarias no estilo do Pearl Jam."

Gilby deixou a entender, em uma entrevista para a Kerrang! na época, que Duff McKagan também não tinha gostado da direção das demos de Slash: "(Axl) não curtiu o que estamos fazendo, ele está repensando o que quer fazer. Ele meio que detonou tudo aquilo em que eu, Slash e Matt tínhamos trabalhado. E daí chegou o Duff. Duff e Axl têm uma idéia preconcebida de como o novo álbum deve soar, e o resto de nós tem uma outra idéia."

Em 1999, Axl deu sua própria versão sobre a idéia de que era ele e McKagan versus o resto da banda, dizendo à MTV: "o que as pessoas não sabem é que o álbum do Slash's Snakepit é na verdade o álbum do Guns N' Roses. Eu só não o gravei. O Duff saltou fora, eu também, porque eu não pude tomar parte do processo de criação. Foi algo do tipo 'não, você vai fazer isto, é assim que vai ser.' E eu não acreditei naquele material. Eu achava que havia alguns riffs ali e algumas partes e idéias que precisavam ser desenvolvidas. Mas eu não tinha problema algum em começar a trabalhar naquelas músicas."

Duff achou que eles haviam perdido uma parte vital do processo de composição: "nós começamos a ir à casa de Slash... E tínhamos um punhado de músicas. Mas, quer saber? Sem o Izzy, não era do mesmo jeito que antigamente. Nós tínhamos um punhado de ótimas músicas, mas o jeito que nós estávamos acostumados a compor não era todos sentadinhos em uma sala tentando nos forçar a ser uma família. Nós simplesmente estávamos ali. Mas houve um ponto em que tudo parecia estar certo e nós começamos a compor músicas, mas as coisas começaram a desgringolar."



Aparentemente Axl não achava que Gilby era um substituto à altura para Izzy. "Nós não sabemos se vamos escrever as músicas com Gilby ou com outra pessoa", disse ele em 1993. "O que nós sabemos é que queremos tocar com Gilby, mas não temos certeza quanto ao processo de composição."

"Minha última conversa com Axl foi quando ele me ligou e estava tentando explicar o que queria fazer", disse Gilby à Spin em 1999. "E basicamente era o seguinte: 'eu quero mudar o som da banda. Sabe, eu quero tocar o que está rolando no momento... Eu quero tocar, sabe, uns lances mais industriais.' Naquela época ele realmente gostava de bandas como Jane's Addiction, Pearl Jam e Nine Inch Nails. Eu apenas ri e disse: 'olha - eu só quero tocar guitarra em uma versão barulhenta dos Rolling Stones, sabe?'"

"Já fazia tempo que eu sabia que Axl iria mudar o estilo da banda. Eu sabia que o fim estava chegando", disse ele. "É por isso que eu fui a fundo na minha carreira solo. Tinha dias em que Axl ligava para Slash e dizia, 'manda o Gilby embora - ele não se encaixa no meu plano', mas ele nunca dizia isso pra mim. Isso rolou por um longo tempo."

Slash escreveu em sua autobiografia "Slash", publicada em 2007: "Axl despediu o Gilby sem consultar ninguém. O raciocínio era de que Gilby sempre foi um músico contratado e que não poderia participar do processo de composição."

Nesse mesmo período, no dia 10 de maio Duff foi levado às pressas a um hospital de Seattle - seu pâncreas explodiu como resultado de anos de abusos de álcool e drogas. "Eu estava em minha casa em Seattle quando uma dorzinha começou a ficar mais intensa. Doeu tanto que eu não conseguia sequer pegar o telefone para ligar para alguém. Pra minha sorte, calhou de o meu melhor amigo aparecer na minha casa, e eu foi levado ao pronto socorro." Tendo tido sorte de sobreviver, quando recebeu alta, oito dias depois, Duff foi avisado de que somente um drinque seria o suficiente para matá-lo.

Por volta de agosto/setembro de 1994, Slash voltou ao estúdio para gravar as demos recusadas por Axl e fazer o álbum que se tornaria o debut do Slash's Snakepit, "It's Five O'Clock Somewhere", com produção de Mike Clink e contando com Matt Sorum na bateria, Mike Inez no baixo e Eric Dover do Jellyfish nos vocais. "Ele e eu escrevemos todas as letras para as 12 faixas", escreveu Slash em sua autobiografia, "e eu acho que é bem fácil perceber quais foram as letras que ele escreveu e quais foram as que eu escrevi: todas as minhas letras eram direcionadas a uma única pessoa... Mas na época ninguém percebeu isso. Eu usei o disco como uma oportunidade para soltar um monte de coisa que estava atolada na minha garganta."

Com essa informação, fica mais claro o significado de letras como a de "What Do You Want To Be" (o que você quer ser), com versos como: ‘What the hell do you want to be/Following the trends that never end’ (que porra você quer ser/Seguindo as modas que nunca acabam), e ‘Ya ain’t been out in days/Will the sunshine burn your face/Preserve your precious skin/I’ll go out, you stay in.’ (faz dias que você não sai/será que o sol vai queimar seu rosto/preserve sua pele preciosa/eu vou sair, você que fique).



De acordo com Slash, o álbum foi gravado e mixado em 26 dias - para a surpresa de Axl. Como lembrado pelo guitarrista no ano seginte: "eis que de repente, depois de terminado o álbum, ele (Axl) vem pra mim e fala: 'lembra daquelas suas fitas? Sabe, eu quero...' Ele nem sabia que nós já tínhamos gravado o disco. E ele começou a falar: 'eu gostei dessa música, dessa música, dessa música, dessa música e dessa música.' E eu falei: 'cara - nós já terminamos de gravar o disco. Já era.' Ele retrucou: 'você não pode ter gravado um álbum em duas semanas.' Eu disse: 'sim, eu posso.' É claro que dá pra fazer isso. E essa situação se tornou uma enorme briga."

Em outubro, o publisher do Guns, Tom Zutaut, veio com a idéia de gravar uma versão de "Sympathy For The Devil", dos Rolling Stones, para inclusão na trilha sonora do filme "Entrevista com o Vampiro". Slash concordou, pensando que pelo menos isso reuniria a banda no estúdio.

"Não funcionou", ele admitiu à revista Rolling Stone mais tarde. "Nós nunca íamos ao estúdio ao mesmo tempo - coloquemos dessa forma. E isso foi bem indicativo do que eu não queria que acontecesse."

Em sua autobiografia, Slash diz que Axl transmitiu comentários por outra pessoa de que o guitarrista teria que "regravar meu solo de guitarra para que soasse nota-por-nota como o solo original de Keith Richards". Quando ele recebeu uma fita DAT da música já finalizada, ele "percebeu que havia outra guitarra gravada por cima da minha no solo. Axl mandou que Paul Huge gravasse em cima do meu solo."

Quem afinal era Paul Huge? Também conhecido como Paul Tobias, "Paul é apenas um amigo do Axl", disse Slash à Metal Express. "Ele trouxe o Paul sem me dizer. Eu fiquei bem irritado, porque o principal é a banda - unir a banda... Não é algo como contratar uns músicos de estúdio e fazer o Guns N' Roses - não é assim que funciona."

Para a revista Q, em 2001, ele ainda disse: "esse foi um dos maiores problemas, além de um dos mais pessoais, que Axl e eu tivemos - trazer um guitarrista de fora sem nem sequer me dizer."

O Snakepit agendou uma turnê pelos Estados Unidos, Europa, Japão e Austrália quando Axl tentou atrapalhar os planos. "Axl me pediu para não sair em turnê com Slash", disse Matt Sorum mais tarde. "Se eu saísse em turnê com o Snakepit, isso poderia ter causado conseqüências sérias. Então eu fiquei em casa e trabalhei um pouco com Axl e Duff. Eu tenho certeza de que tomei a decisão certa."

Enquanto isso, Slash convocou Brian Tichy e James LoMenzo, do Pride & Glory, banda de Zakk Wylde. Em 10 de dezembro de 1994 o Pride & Glory realizou o último show de sua turnê em Los Angeles (nessa época LoMenzo já havia saído da banda e tinha sido substituído por John DeServio). Slash se juntou a eles no palco para tocar duas músicas de Jimi Hendrix: "Voodoo Child" e "Red House".

Tanto o Pride & Glory quanto o Guns N' Roses na época eram empresariados pela Big FD Management, de propriedade de Doug Goldstein. Não foi coincidência, portanto, que Zakk Wylde foi chamado para tentar uma vaga no Guns.

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