Bob Dylan & The Band em Woodstock

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Bob Dylan & The Band em Woodstock

Mensagem  PapaNJam em Dom Jan 25, 2009 12:27 am

Woodstock é sempre associado com o festival de música ocorrido em 1969, que na verdade foi realizado na cidade de Bethel (Belém), algumas milhas a leste perto da fronteira com o estado de Conneticutt. A cidade rural de Woodstock havia sido escolhida pois, no início de 1969 um certo disco pirata apareceu com umas gravações que foram realizadas em uma cabana naquela cidade.


--------------------------------------------------------------------------------

Tratava-se de uma serie de gravações informais de Bob Dylan com sua banda, no que mais tarde seria conhecido como “Bob Dylan’s Basement Tapes” (“As Fitas do Porão de Bob Dylan”). O pirata, conhecido como “Great White Wonder” ou simplesmente “GWW”, era composto primordialmente de material de Dylan sozinho no violão gravado em 1961 em Minnesota. Porém haviam sete faixas com banda, material gravado em Woodstock no porão da casa dos integrantes da banda em 1967.



Não demorou muito e logo apareceu um álbum inteiro com material tirado dessas sessões. Este pirata foi chamado “Waters of Oblivion” e deixaria claro que havia muito mais coisa arquivada destas sessões. Outras faixas foram aparecendo em piratas variados até que em 1975 a CBS finalmente lançou um álbum duplo apropriadamente chamado de “The Basement Tapes”. De lá pra cá, existem pelo menos cinco volumes de piratas com gravações originais destas sessões, que ganharam o nome muito explicito de “The Original Basement Tapes Vol 1-5”. Para melhor entender a relevância destas sessões precisamos falar dos artistas e o momento histórico em suas carreiras.

Bob Dylan, ícone folk, estava em 1966 deixando seu público principal furioso por adotar instrumentação elétrica. Pelo lado do artista, ele não queria ser limitado a violão e gaita ou só um tipo de música. Pelo lado do público, parecia que Dylan estava se vendendo em troca de aceitação comercial em grande escala. O encontro destas duas óticas distintas resultaram em uma excursão em casas lotados por um público disposto a pagar um bom dinheiro para vaiar o artista. Dylan, que vivia uma fase divisora de águas, fazia uma primeira parte de seu show só com o violão e gaita. Depois de um intervalo, retornava com sua banda e atacava o público com volume. O povo respondia com vaias e gritos de Judas. Bob Dylan e sua banda foram vaiados apaixonadamente pelas massas durante todo o show em todos os locais por onde eles se apresentaram.

A banda em questão se chamava The Hawks, que Dylan conheceu em Nova Jersey apresentada pelo produtor de seus discos, John Hammond Jr. Fizeram com Dylan toda a excursão européia de 1966, em uma missão sofrida de tocar boa música para o despreparo e negação de seus fieis fãs. Fieis sim, pois eles continuavam vindo e lotando os teatros, mesmo que exclusivamente para aplaudir o set acústico e vaiar durante o elétrico.

Ronnie Hawkins & The Hawks era uma banda originária do estado sulista de Arkansas, que, liderado por Ronnie Hawkins, fez bastante sucesso naquele estado em 1957-58. Depois, assim como os Beatles foram para Hamburgo na Alemanha, que pagava melhor por atrações roqueiras, The Hawks encontraram seu Eldorado financeiro em Toronto no Canadá em 1958, permanecendo por lá até 1964. Conforme os anos foram passando, os integrantes foram deixando o grupo e retornando a Arkansas. Foram aos poucos sendo substituídos por músicos Canadenses. Em tempo, Hawkins percebeu que perdera controle sobre a direção musical do grupo e também partiu.

Agora como Levon Helm & The Hawks, os integrantes são Levon Helm – bateria e vocais, Robbie Robertson – guitarra e vocais, Rick Danko – baixo e vocais, Richard Manuel – piano e vocais e Garth Hudson – órgão e vocais. The Hawks passavam então a ser uma banda canadense, tocando música enraizada no sul americano e tendo no sulista Levon Helm, um americano como trunfo para o quesito autenticidade. Seguiram em 1964 para os Estados Unidos, tocando em bares e sonhando com uma gravadora, quando em Nova York conhecem e gravam para o produtor John Hammond Jr, que os leva a conhecer Bob Dylan.

Depois da excursão européia, Dylan foi para sua casa de campo em Woodstock no norte do estado de Nova York com intuito de arejar a cabeça. Estando lá, assistiu o documentário “Don’t Look Back” feito por DA Pennebaker sobre sua última excursão e não gostou dos resultados. Dylan juntou metros e metros de filme usado e não usado pelo diretor, chamou seu guitarrista Robbie Robertson para ajudá-lo a re-editar o material, e montou um novo documentário, que mais tarde seria lançado com o nome de Eat That Document. Ainda houve o acidente de motocicleta que quase o matou. Embora não tenha ficado preso a uma cama por muito tempo, o acidente o obrigaria a passar um longo período afastado da cena musical.

O empresário de Dylan, Albert Grossman acaba sugerindo para o pessoal do The Hawks irem para Woodstock ficar perto de Dylan, certamente com intenção de manter produtivo seu artista mais rentável. Veio Rick Danko, que alugou uma casa rosa em West Saugarties, perto de onde Robbie Robertson já tinha uma casa alugada e nela hospedou Richard Manuel e Garth Hudson, seguido depois por Levon Helm. West Saugarties fica a poucas milhas ao norte de Woodstock e não muito distante da casa de Dylan. Mas o ponto de encontro de todos, Bob Dylan inclusive, era na grande casa rosa, batizado por Danko de Big Pink. É no porão desta casa, onde um estúdio de ensaio foi montado, que nasceu a música que mudaria a carreira da banda e cujo material resultaria em um disco que acabaria por influenciar outros artistas em dois continentes.



Influenciado pelas montanhas, The Hawks, até então, que normalmente tocavam mais agressivamente, abaixariam a bola e passaria a dar maior atenção a clima. Robbie Robertson em entrevista comentava “O clima da canção passou a ser o foco.” Nesses ensaios com ou sem a presença de Bob Dylan, nasceu uma imensa quantidade de músicas, algumas mais sérias em concepção do que outras. De interessante a ressaltar é que, em maio/junho de 1967, em que estas sessões foram realizadas, o mundo estava imerso em rock psicodélico. No entanto, a música rolando nessas sessões era enraizada em música americana mais pura, bluegrass, rhythm & blues, country, música rural vindo das montanhas Appalachia.

Bob Dylan optaria por não usar esse material em seu próximo disco, acabando por ir de uma hora para outra a Nashville e gravar com músicos de estúdio o álbum que se tornaria “John Wesley Harding”. Dylan na ocasião estava renegociando um contrato com a CBS e segundo uma teoria, estava para fechar um acordo lucrativo com a gravadora MGM. Dylan supostamente devia à CBS 14 canções e teria preparado uma seleção de material mal acabado vindo dessas sessões em Woodstock simplesmente para se livrar do contrato. Se esta hipótese for correta, então esta seleção possivelmente seria a que acabou saindo no pirata “Waters Of Oblivion”
Com o acordo com a MGM Records não fechando e a renovação com a CBS Records concretizada, seu interesse por este material, se é que houve algum real interesse, pode ter sido substituído por outras. O que sabemos de fato é que as gravações só foram utilizadas por Dylan como demo para oferecer material para os outros. O primeiro a lançar algo desta safra, ainda em 1967, foi um velho client de Dylan, o trio folk Peter, Paul and Mary. “Too Much of Nothing” foi lançado em novembro de 1967 e se tornou mais um hit para eles.

Possivelmente o hit mais conhecido, entre esse material originado em Woodstock, é “The Mighty Quinn” gravado pela a banda inglesa Manfred Mann que também lançariam “Get Your Rocks Off”. O marcante disco country do Byrds, “Sweetheart of the Rodeo” abre com “You Ain't Goin' Nowhere” e fecha com “Nothing Was Delivered”. Outro conjunto inglês, Fairport Convention gravaria “Million Dollar Bash” para seu terceiro álbum enquanto o conjunto Trinity com Julie Driscoli e Brian Auger chega a nº 5 nas paradas londrinas com “This Wheel's on Fire”, também regravado pelos Byrds em 1969.

Mas seria da banda de Dylan o primeiro disco cujas repercussões seriam mais representantes. O material é um resultado destas sessões no porão da grande casa rosa. Não incluiriam as gravações demo originais, o álbum seria gravado em estúdios profissionais nas cidades de Nova York e Los Angeles. Mas as composições e concepções de arranjos são frutos do que produziram e aprenderam em Woodstock.

A banda deixara de lado o nome The Hawks e entre tantas opções, acabaram por concordarem com The Crackers. Porém na pratica, todos os vizinhos e amigos apenas referiam-se a eles como ‘a banda’ (the band). Então quando chegou a vez de fechar contrato com gravadora e iniciar as sessões de gravações em final de janeiro de 1968, acabaram optando assumir o nome The Band. Em meio a psicodelia em voga, passamos a achar natural grupos com nomes alegóricos como Big Brother & The Holding Company, Iron Butterfly, Vanilla Fudge, The Only Alternative & His Other Possibilities, Joy of Cooking, Quicksilver Message Service, Earth Mother & The Final Solution, 13th Floor Elevator, Captain Beefheart & His Magic Band, Chocolate Watch Band, A Beautiful Day, Commander Cody And His Lost Planet Airman e por ai vai... A escolha deste nome simplório, porém com um certo senso de humor, tem uma relevância imensa.


The Band no porão de Big Pink, 1968

Simples e direto, bem arroz e feijão - pé no chão, o nome The Band, coerente com o seu disco de estreia, reflete o som e caminho musical que seus integrantes trilham e oferecem. Apresentam um álbum cujo som é bem mais terra do que o material psicodélico que havia nesta época. O titulo do álbum é uma alusão ao local de onde veio a inspiração destas canções: “Music From Big Pink” (“Música do Grande Cor-de-Rosa”) é um titulo igualmente simples e direto, com um certo senso de humor.

Outras evidências são claras de que este é um disco diferente. Os vocais não são nunca uníssonos, como acostumamos a ouvir. Os vocalistas vão se complementando em um ar descontraído, quase relaxado, porém preciso. O enfoque é distribuído entre os diversos instrumentos, em um ensamble que oferece, além de guitarra, baixo, bateria e teclados, instrumentos como o violino, sanfona e outros instrumentos de corda, sopro e percussão executados pelos integrantes da banda, todos multi-instrumentistas. Destaque especial para o órgão de Garth Hudson que leva o instrumento a outra dimensão do que estamos acostumados a ouvir em churrascarias e igrejas batistas mundo afora.



“Music From Big Pink”, lançado pela CBS em julho de 1968, oferece na capa uma pintura feita por Bob Dylan na época. Temos ainda a canção “I Shall Be Released” fazendo sua estréia em vinil aqui, lançada dois anos antes de Dylan gravá-la oficialmente. Temos também parcerias que ocorriam no porão, como “Tears of Rage” de Bob Dylan e Richard Manuel e “This Wheel’s On Fire” de Bob Dylan e Rick Danko. Se você comprar o recente lançamento em CD, você terá ainda como faixas bônus, a canção “Long Distance Operator” de Dylan, lançado oficialmente apenas no álbum da CBS, Basement Tapes.
O disco, originalmente com onze canções, teria apenas “The Weight” como um pequeno hit, em parte graças a sua inclusão no filme Easy Rider. Mas por destoar tanto com o mercado vigente, chamou atenção de muita gente e aos poucos, foi se tornando um sucesso de vendagem através dos anos. Ele influenciou um monte de gente, a começar por The Byrds que alguns meses depois lançava “Sweetheart of the Rodeo”, mencionado alguns parágrafos acima. Este é um disco composto inteiramente de puro country americano, deixando de lado o estilo folk rock que os tornaram famosos.

Em Londres, George Harrison e Eric Clapton em ocasiões distintas tiraram tempo em entrevistas de falar de seus trabalhos exclusivamente para elogiar o álbum. Na verdade, tanto os Beatles quanto os Rolling Stones deixaram o psicodelismo de lado em seus lançamentos de 1968, parcialmente influenciados pela tendência que o disco, o primeiro álbum da The Band, parecia apontar. Eric Clapton chegaria a declarar que após ouvir o disco “Music From Big Pink”, considerou seu grupo Cream, um power trio de grande prestigio e importância nos anais roqueiros, como um conjunto de proposta musical obsoleta. Tanta era a convicção de Clapton que o Cream acabaria ao final daquele mesmo ano de 1968.

A tendência do mercado passa mesmo a mudar. Volume e sonoplastia davam lugar para canções com estruturação voltada ao clima e enredo. Letras sem nexo (lembra de “Mellow Yellow”?) são substituídas por letras voltadas a vivências, a fé, a família e a vida árdua do dia-a-dia. Para aqueles que precisam de um rótulo, o álbum “Music From Big Pink” pode ser chamado de rural. Uma ilha de rock rural em um mar de rock psicodélico, rock ácido, e rock arte (antes que tudo se tornasse rock progressivo).

Só para concluir a idéia comentada no primeiro parágrafo, um grupo de quatro pessoas resolveram montar um estúdio de ensaios e gravações em Woodstock porque o local era um ponto preferido de certos artistas da area folk. Isto não era uma novidade em si, pois a cidade tem ligações artísticas desde a década de cinqüenta, ou antes. Mas o fato ficara mais evidente graças às gravações de Dylan que saíram nos dois primeiros grandes piratas da época, “Great White Wonder” e “Waters of Oblivion”. Para levantar dinheiro para montar o estúdio, assim como também para chamar atenção em grande escala para a cidade e sua ligação artística, resolveram montar um festival.

O estúdio acabou nunca acontecendo, já o festival...

PapaNJam

Mensagens : 2854
Data de inscrição : 03/04/2008
Localização : Lisboa

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum